
Genna Betros e Corey Deemer se casaram após se conhecer no Unjected — Foto: Reprodução Crédito: Extra.globo.com
Em um cenário pós-pandemia, onde a vacinação contra a Covid-19 se tornou um divisor de águas na saúde global, plataformas de relacionamento direcionadas a nichos específicos têm ganhado destaque. Um exemplo notável é o Unjected, um aplicativo de namoro que conecta exclusivamente indivíduos que optaram por não receber a vacina, registrando um crescimento expressivo e gerando discussões acaloradas sobre suas implicações.
A ascensão do Unjected reflete uma parcela da população que, como Genna Betros, de 27 anos, manifesta desconfiança em relação à rapidez do desenvolvimento de vacinas e ao apoio governamental. Genna, criada em Nova Jersey em um ambiente que priorizava abordagens alternativas à saúde e questionava a medicina tradicional, via a indústria farmacêutica com ceticismo, uma perspectiva que moldou suas escolhas pessoais e amorosas.
Essa visão a levou a buscar parceiros que compartilhassem de suas convicções. Após explorar aplicativos de namoro convencionais, ela encontrou no Unjected um espaço onde se sentia compreendida. A plataforma, lançada em 2021, descreve-se como um elo para “aqueles que compartilham valores semelhantes e a convicção de permanecerem não vacinados”, ou, nas palavras de Genna, “pessoas que desejam se manter firmes pela família e não se curvar ao que a TV diz”.
O aplicativo facilitou o encontro de Genna com Corey Deemer, um aprendiz de eletricista da Filadélfia. Apesar da distância inicial, o casal estabeleceu uma conexão profunda, culminando em casamento. A história deles é um dos muitos exemplos de sucesso citados pela plataforma, que hoje conta com cerca de 65 mil usuários ativos.
Scott Armstrong, diretor de operações do Unjected, revela que a maioria dos usuários tem entre 25 e 45 anos. O perfil comum inclui indivíduos que se identificam como politicamente independentes, espiritualizados, vegetarianos ou veganos. Armstrong enfatiza que, apesar de algumas associações, a grande maioria dos membros não se alinha politicamente a figuras como Donald Trump, que também é frequentemente associado a críticas à ciência e às políticas de imunização em massa.
Curiosamente, as maiores concentrações de usuários do Unjected estão em cidades que implementaram algumas das restrições mais rigorosas durante a pandemia, como Portland, Denver, Toronto e Phoenix, com a Califórnia liderando em número de usuários por estado.
O sucesso e a visibilidade do Unjected não vêm sem críticas. Eventos promovidos pela plataforma, por exemplo, foram duramente comentados por veículos de imprensa, que questionaram a promoção de relacionamentos baseados na desinformação científica. A preocupação central dos críticos reside no impacto potencial de um movimento anti-vacinação na saúde coletiva.
Especialistas em saúde pública alertam que a diminuição das taxas de imunização tem levado ao ressurgimento de doenças infecciosas que antes estavam controladas, colocando em risco grupos vulneráveis como bebês, idosos e pessoas imunocomprometidas. Dados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA indicam um aumento recorde nas isenções não médicas para vacinas infantis, paralelamente a um crescimento nos casos de coqueluche e surtos de sarampo, não vistos em décadas. Este cenário eleva a relevância da discussão sobre plataformas que, mesmo indiretamente, podem reforçar a hesitação vacinal, impactando a saúde de toda a comunidade.