Categories: Notícias

Análise de múmias revela princesas egípcias como caçadoras e arqueiras há quase 4 mil anos

Share

Marcas físicas encontradas nos restos mortais de mulheres da realeza do Antigo Egito, que viveram há aproximadamente 3.700 anos, indicam que estas princesas eram exímias caçadoras e arqueiras. Um novo estudo desafia a visão tradicional de que os armamentos encontrados em seus túmulos teriam apenas um propósito simbólico, sugerindo um papel muito mais ativo e físico para as figuras femininas da elite egípcia.

Sinais no corpo desvendam habilidades ancestrais

Pesquisadores da Universidade de Beni-Suef, no Egito, examinaram os esqueletos de quatro princesas — Ita, Khenmet, Itaweret e Noub-Hotep —, filhas do faraó Amenemés II. A análise revelou um desenvolvimento muscular acentuado nos membros superiores, especialmente braços, mãos e ombros. Essas características são consistentes com movimentos repetitivos que exigem grande força e precisão, como puxar a corda de um arco ou manusear armas pesadas.

Estátua de Amenemés II — Foto: Reprodução Crédito: Extra.globo.com

Zeinab Hashesh, principal autora do artigo, enfatizou que “o desenvolvimento acentuado nos membros superiores desses indivíduos se correlaciona com ações repetitivas e de alta intensidade, comprovando que essas atividades eram habituais ao longo de suas vidas”. Essa descoberta é crucial, pois altera a compreensão sobre o cotidiano e as responsabilidades das mulheres da realeza egípcia.

Armas em túmulos: mais do que simbolismo

A presença de arcos, flechas e uma adaga, encontrada junto à princesa Ita, nos túmulos das princesas sempre foi interpretada como um gesto simbólico, representando status ou proteção na vida após a morte. No entanto, as evidências físicas de um estilo de vida ativo sugerem que esses objetos militares poderiam ter sido ferramentas de uso pessoal e não apenas itens cerimoniais.

Esta reinterpretação é significativa porque oferece um novo panorama sobre o poder e a autonomia das mulheres na corte faraônica. Em vez de serem figuras passivas ou meramente decorativas, elas poderiam ter participado ativamente de atividades como caça, que era uma prática importante para a elite egípcia, tanto para alimentação quanto para demonstração de poder e habilidade.

Ferimentos cicatrizados e a medicina no Egito Antigo

Além das marcas de uso contínuo, os cientistas identificaram lesões ósseas que, embora graves, apresentavam sinais de boa cicatrização. Tais ferimentos são compatíveis com acidentes, quedas ou impactos fortes, comuns em um estilo de vida que envolvia atividades físicas intensas, como a caça ou o treinamento militar.

Hashesh salienta que “o que é notável é que os ferimentos cicatrizaram bem, o que sugere que elas tinham acesso a cuidados médicos avançados para a época”. Este detalhe não apenas reforça a ideia de um estilo de vida ativo, mas também joga luz sobre a sofisticação da medicina praticada na realeza egípcia há milênios, garantindo que membros da elite pudessem se recuperar de lesões graves e continuar suas atividades.

Redescoberta de múmias e próximas etapas da pesquisa

As múmias das filhas de Amenemés II foram originalmente descobertas na década de 1890 pelo arqueólogo Jacques de Morgan em um cemitério na região de Dahshur, no norte do Egito. Após um período em que foram consideradas perdidas, elas foram redescobertas em 2020 no acervo do Museu Egípcio, no Cairo, possibilitando esta nova e aprofundada investigação.

A pesquisa com os esqueletos das quatro princesas, do rei Hor e de uma mulher não identificada (possivelmente a princesa Sathathormeryt) permitiu a reconstrução de informações vitais sobre idade, saúde, atividades físicas e possíveis relações familiares. Zeinab Hashesh projeta que este é apenas o início, com o objetivo de “contar suas histórias de vida completas, suas famílias, sua saúde e até mesmo seus papéis políticos, com o máximo de detalhes possível”, prometendo novas revelações sobre a complexa sociedade egípcia.