Um homem será submetido a júri popular nesta quinta-feira (17) em Blumenau, Santa Catarina, sob a acusação de tentativa de feminicídio contra uma amiga. O caso, que ganhou repercussão pela brutalidade e pela estratégia de sobrevivência da vítima, ocorreu em março de 2025 no bairro Testo Salto, quando a mulher foi violentamente agredida após um jantar.
A vítima, em um ato de desespero e inteligência, conseguiu escapar do agressor ao fingir estar morta, após ser espancada, ter as mãos algemadas e ser estrangulada. A sessão do Tribunal do Júri será realizada a portas fechadas, conforme determinação judicial, devido ao sigilo do processo.
Este julgamento representa um passo crucial na busca por justiça em um episódio que chocou a comunidade local e colocou em evidência a urgência do combate à violência de gênero. A narrativa de sobrevivência da mulher destaca a complexidade e a imprevisibilidade de tais ataques, muitas vezes perpetrados por pessoas próximas.
O episódio de violência se desenrolou de forma repentina, conforme o relato da vítima à polícia. Após um jantar que parecia comum com o homem que considerava um amigo, no momento em que se despedia para ir embora, ela foi surpreendida por um “mata-leão”, uma técnica de estrangulamento. A agressão escalou rapidamente, transformando o encontro em uma luta pela vida.
A mulher foi alvo de espancamento no rosto, teve suas mãos algemadas e foi novamente estrangulada, desta vez com uma corda. Diante da iminência da morte, ela tomou a decisão consciente de simular o óbito, uma tática extrema para cessar a violência e criar uma oportunidade de fuga. Essa ação, embora desesperada, demonstrou um notável instinto de autopreservação.
A estratégia se mostrou eficaz. Deixada desacordada no veículo, a vítima recuperou a consciência e, mantendo-se imóvel e com os olhos fechados, observou o agressor se aproximar para assumir o banco do motorista. Nesse instante decisivo, ela agiu com rapidez, trancou as portas do carro e conseguiu dirigir em direção à casa de familiares, buscando refúgio e socorro.
A fuga da vítima desencadeou uma perseguição dramática. O agressor, percebendo que a mulher havia recuperado a consciência e estava fugindo, iniciou uma perseguição implacável. Ele colidiu repetidamente contra a traseira do veículo da vítima, em uma tentativa clara de impedir sua fuga e possivelmente consumar o crime que havia iniciado.
Apesar das batidas e do perigo iminente, a mulher manteve o controle do carro e conseguiu se aproximar da residência de seus familiares. Ao chegar, o cenário era de horror: com o rosto visivelmente desfigurado pelas agressões, ela clamava por ajuda, evidenciando a brutalidade do ataque que havia sofrido pouco antes. O delegado Bruno Fernando, responsável pelo caso, confirmou o estado grave em que a vítima chegou ao local, chocando a todos que a presenciaram.
Segundo o depoimento da vítima, o agressor teria justificado suas ações por ciúmes, proferindo ameaças de morte. Contudo, a mulher nega veementemente qualquer envolvimento amoroso ou relacionamento íntimo com o acusado, reiterando que a relação entre eles era estritamente de amizade. Essa alegação de ciúmes, muitas vezes infundada, é um padrão recorrente em casos de violência contra a mulher, onde o controle e a possessividade se manifestam de forma brutal.
A Polícia Civil, responsável pela investigação, indicou que a mulher acredita que o suspeito tinha a intenção de ocultar seu corpo após a agressão, o que reforça a gravidade e a premeditação da tentativa de feminicídio. A rápida ação da vítima em simular a morte e fugir foi crucial para frustrar os planos do agressor e garantir sua sobrevivência.
A prisão do suspeito, que tinha 56 anos na época dos fatos, ocorreu em 2 de abril de 2025. Ele foi localizado e detido na BR-101, em Balneário Piçarras, no litoral catarinense, apenas algumas semanas após o crime. Após a captura, o homem foi encaminhado ao Presídio Regional de Blumenau, onde aguarda o desfecho do processo judicial.
O julgamento por júri popular é um dos pilares do sistema jurídico brasileiro para crimes dolosos contra a vida, como a tentativa de feminicídio. Nele, cidadãos comuns são convocados para atuar como jurados e decidir sobre a culpa ou inocência do réu, bem como sobre as qualificadoras do crime. A gravidade da acusação e as circunstâncias do caso, que envolvem extrema violência e uma tentativa de ocultação de cadáver, justificam a decisão de levar o agressor ao crivo da sociedade.
Este caso sublinha a importância da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), que visa proteger mulheres da violência doméstica e familiar. A legislação representa um marco na defesa dos direitos femininos, estabelecendo mecanismos para prevenir, punir e erradicar a violência contra a mulher. A existência de canais de denúncia é fundamental para que vítimas e testemunhas possam buscar auxílio e interromper o ciclo de agressões.
A Lei Maria da Penha não apenas tipifica diversas formas de violência (física, psicológica, sexual, patrimonial e moral), mas também prevê medidas protetivas de urgência para as vítimas, afastando o agressor do lar e garantindo a segurança da mulher. A conscientização sobre esses direitos e a coragem de denunciar são passos essenciais para mudar a realidade da violência de gênero no país.
A história desta mulher de Blumenau é um lembrete contundente da importância vital de denunciar qualquer forma de violência contra a mulher. A Lei Maria da Penha oferece um arcabouço legal robusto para proteger as vítimas, mas sua efetividade depende da coragem de quem sofre ou presencia as agressões em buscar ajuda. Cada denúncia, por menor que pareça, é um passo para quebrar o ciclo de violência e responsabilizar os agressores.
Em Santa Catarina, assim como em todo o Brasil, existem diversos canais para registrar denúncias de forma segura e, se necessário, anônima. A Polícia Civil disponibiliza a Delegacia de Polícia Virtual da Mulher, permitindo que a denúncia seja feita online, além de um número de WhatsApp exclusivo para atendimento. A Polícia Militar, por sua vez, oferece o aplicativo PMSC Cidadão, uma ferramenta prática para situações de emergência. Além desses, os telefones 181 (Polícia Civil), 190 (Polícia Militar) e 180 (Disque Denúncia) estão sempre disponíveis para receber informações e prestar socorro.
A criação de uma rede de apoio sólida, envolvendo familiares, amigos, profissionais de saúde e segurança pública, é crucial para que as vítimas se sintam encorajadas a sair de relacionamentos abusivos e a buscar justiça. Casos como o de Blumenau, onde a vítima precisou usar de extrema sagacidade para sobreviver, reforçam a urgência de uma sociedade mais atenta e protetiva, capaz de identificar os sinais de violência e agir antes que seja tarde demais. A visibilidade desses julgamentos, mesmo com o sigilo processual, serve como um alerta e um incentivo à prevenção.